AL-QUIMIAS

AL-QUIMIAS, FOTOSSENSIBILIDADES E IMPOSSIBILIDADES.

“Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado. Fotografei o perfume. Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra. Fotografei a existência dela.
Manoel de Barros, Ensaios Fotográficos.

Capturar a luz, aprender a graficar sistematicamente com ela: se tomarmos como referência a Vista da Janela em Le Grass, capturada por Niépce na década de 1820, comemoraremos proximamente dois séculos desse empreendimento phōto-gráfico. A saga desse investimento, um dos que definiu e deu forma à modernidade, se prolonga hoje no mundo do pixel, dos códigos binários e no universo da transmissibilidade universal e instantânea da Rede. Dialogar com essa história da captura da luz, e das formas de graficá-la, de traduzir as suas gradações para um papel, ou outro suporte estável, com o intuito de produzir imagens, é um dos objetivos que tem dado fôlego ao grupo Al-Químicos.

Pelo terceiro ano consecutivo utilizamos a plataforma de visibilidade do Espaço f para dar corpo às nossas pesquisas no universo das foto-sensibilidades químicas. Desta vez, junto com as protagonistas que deram continuidade aos trabalhos realizados ao longo deste ano: duas câmeras de grande formato acompanhadas de duas redescobertas: as chapas fotossensíveis que, comercializadas e usadas para processos de raios X e mamografias, se revelaram como excelentes substitutos para o filme negativo produzido para essas câmeras, hoje em desuso. Fazer da necessidade virtude: equipamentos datados, técnicas sem amanhã, materiais em vias de desaparição comercial viraram aqui protagonistas. Acompanhando ainda, em diálogo e interfase, com processos já historicamente extintos no universo da indústria, da produtividade e do mercado, tais como a cianotipia e o marrom Van Dyke

Porém, como bem nos lembra Manoel de Barros, toda tentativa de capturar o mundo como imagem entra nos territórios inefáveis da poesia, da existência, do signo… da vida e do contrassenso de pretender capturá-la. Apesar dessas iniludíveis impossibilidades (ontológicas, epistemológicas e poéticas), apesar das múltiplas dificuldades (técnicas, econômicas e comerciais) de realizar esse velho sonho, nós os Al-químicos continuamos trabalhando, contra todo prognóstico (obstinada e quimicamente), na intenção de realizá-lo. Compartilhamos com vocês esta nova série de tentativas falidas.

Adolfo Cifuentes
Coordenador Grupo de Pesquisa em Fotografias Químicas Al-Químicos..
Departamento de Fotografia, Teatro e Cinema.
Escola de Belas Artes/UFMG

PARTICIPANTES
Adaiany Rodrigues
Adolfo Cifuentes
Angelo Arantes
Cleber Falieri
Guilherme Boechat
Karol Luan Oliveira